do ar até o arterial
Claudia Calado.
Um útero de estrelas no interior da nuvem escura de Spitzer.
21:43

(Anotação Pessoal)

O problema das pessoas que vivem a “realidade” é que são todas, todas limitadinhas. Podadas e, senão entediadas, entediantes. Sem um único instante vivido capaz de fazê-las perceber que elas próprias, sendo existência e consciência, e não somente um amontoado de músculos e carnes, são movidas a pensamentos. Pensamentos não se tocam. Não se alcançam. Não são puras e simples reações bioquímicas cerebrais. Não são neurônios. Nem células. ”O que não significa que sejam menos reais”.

O problema das pessoas que vivem a “realidade” é que elas todas não enxergam - nem transpassam - o que se encontra depois da superfície e da brutalidade. 

C.

21:00
20:59 veinsssssss:

xx
20:55
20:45
IX

- For me the most beautiful word is grazie.

Eu acredito quando dizem que ao darmos as mãos, entrelaçamos fios, e que ao darmos adeus, apertamos nós.

O único tempo existente entre os anos e a vida é o passado, Anna. Esse velho comparsa que espreita nossas cabeças insones e nossas ideias de loucos insanos, nossos medos de crianças imaturas e nossos destinos gravados na carne com tinta, queimadura e cicatriz.

Essa simetria de quando olhamos o céu e parece haver outro céu logo acima deste. É que temos tudo dentro dos olhos sem nunca sabermos com exatidão.

Divisores de águas são mentiras bem contadas, histórias repetidas e fugas sem função. Do nosso pulso até o universo, tudo consiste numa única corrente e persistência. Não me pergunte qual a finalidade de sermos eternos. Mas somos. Como se eu dizendo sobre os ecos, o eco de minha voz fosse até o infinito. Nada para em nós.

Eu deixo o peito sempre aberto porque nenhuma lágrima e nenhum amor me pertence. Nós só vivemos quando somos para fora. Um templo onde sopro, onde sou sopro e também vento. É isso.

Tecidos e retorcidos, o útero e a criação, a nossa ignorância diante da vida e do nascer. Tão unidos. Tão únicos. E tão sós com nossos segredos e visão. Com minhas mãos, aprendo a dobrar flores e papel. Com minhas mãos, escrevo palavras dentro das flores.

Uma guerra é tudo o que a gente precisa pra descobrir do que se trata a miséria. Igualmente, uma guerra é tudo o que a gente precisa pra descobrir do que se trata a beleza.

Grazie.

Claudia Calado, 22 de Abril de 2014

(Sobre Venuto al Mondo (2012), de Sergio Castellitto)

22:13
Anonymous: Claudia, você já teve problemas em ler dois livros ao mesmo tempo? Livros normais, de uma história só.

eu ja tive problemas pra ler um livro só, imagine dois hahaha depende da disposição, da fome, da preguiça, da curiosidade, da manha do autor e da manha da minha leitura

22:05
Anonymous: me indica livros de poemas?

eu estou lendo poem(a)s, do ee cummings, que em uma palavra é genial

e homenagem à realidade, do cruzeiro seixas, é possivelmente o melhor livro de poemas que já trombei num desses acasos da vida

21:57
Anonymous: Não sei se pra você isso pode parecer tolice, mas poderia dar uma olhada nos tumblr que curtirem essa ask?

não tenho paciência pra olhar likes, não. disse isso outro dia. se você quiser me mostrar um texto seu, adorarei ler, sem problema algum. agora, amanhã, depois, lerei leria leio com prazer. mas olhar um amontoado de notes… me parece uma coisa bem bobinha de se fazer

21:51
Anonymous: Já leu algum livro do Bukowski? O que acha dele?

nunca li. os fragmentos que vejo no tumblr, francamente, acho um saco. mas já vi uma porrada de excertos incríveis em alguns blogs aleatórios, ou em fóruns. ou através de amigos. mas nunca foram o suficiente pra me despertarem o desejo de querer ter um livro dele nas mãos. penso que seria decepcionante se eu pegasse o livro errado, e ainda não conheci alguém a quem me atreveria a pedir uma indicação de bukowski para ler (ja conheci muita gente com bukowski na estante, mas nunca alguém que eu perguntasse e dissesse “lê esse. você vai gostar desse. porque esse. lê esse.”)

21:44
Anonymous: e sobre vivre sa vie?

vivre sa vie é um dos filmes dele que gosto. é tão sujo e tão simples que chega a ser genial. certeiro. vai ao ponto. te bate. desse eu gosto

21:31
Anonymous: por que você não gosta muito de godard?

porque quando se fala de godard, automaticamente se fala de nouvelle vague. e eu o acho o diretor mais superestimado da nouvelle vague. se você pegar truffaut ou varda, meu deus, o que é godard? uma unha de truffaut e um fio de cabelo de varda. metade dos filmes de godard me dá nos nervos porque as inovações (técnicas) dele são uma grandíssima bosta. são inovações, ok. mas são uma bosta. ajudaram a desprender (a técnica d)o cinema, ok. mas são uma bosta. se você assistir jules et jim ou cléo de 5 à 7, você observa a ousadia (técnica) dos diretores no filme. as tomadas, os planos, as câmeras. mas são excelentes, entende? é uma ousadia que dá tão certo que parece que cê cavou um caminho todo espiralado na areia e pôs água pra deslizar pelo negócio. a água desliza e é, aos olhos, algo lindo. funciona. o cinema do godard nem sempre funciona. mas ele tem uns filmes fantásticos (especialmente aqueles nos quais ele não age, na falta de palavra melhor, como um grande pedantista)

21:18
Anonymous: Clau, acredita em Deus??

quando você diz “Deus” eu penso sempre nessa coisinha limitada e cruel das religiões. então, não. não acredito em um Pai. não acredito em um arquiteto extra-universo. acho que as coisas estão aqui. interligadas e sobrepostas, de modo muito íntimo e cru. se você disser “Deus é essa união, e você é uma das milhares unidades da natureza de Deus”, eu creio. mas nada de entidades. nada de seres supremos. maiores. oh, os deuses, uh, meu Deus, teu deus, dê maiúsculo, dê minúsculo. só a natureza da natureza

00:31
00:24
23:21

Pressa!…
Ânsia voraz de me fazer em muitos,
fome angustiosa da fusão de tudo,
sede da volta final
da grande experiência:
uma só alma em um só corpo,
uma só alma-corpo,
uma só,
um!…
Como quem fecha numa gota
o Oceano,
afogado no fundo de si mesmo…

Guimarães Rosa (Saudade)