Derramar sobre teu corpo meu próprio peso e engolir os suspiros que escapolem de teus lábios, enquanto ainda é noite e silêncio quebrado por pio de coruja. Nem os olhos mais bem treinados seriam capazes de captar este nosso jogo de fugir em meio às sombras apenas para fingir que nossas mãos não estão dadas, de mergulhar o mais profundo possível no oceano e deixar o oxigênio escapar em bolhas para respirarmos boca-a-boca. Ver a súplica derramada sob nossos mantos está além dos sentidos. O que você ouve não é minha fala, mas meus pensamentos, e o que toco não é tua pele, mas tua ideia e proteção. Os beijos foram a memória de um ano bissexto, mas eu sei que o tempo é vapor e há seis horas ignoradas a cada trezentos e sessenta e cinco dias. As lágrimas foram as pérolas do colar que eu estourei nas ondas, mas o vai-e-vem do mar traz riquezas. Dizer que o abismo é profundo ou que a ponte é frágil não é o mesmo que afirmar que eu não irei pular ou atravessar para a outra margem. Só me dou conta dos riscos quando os papéis estão amassados na lixeira ou queimados no quintal, e ainda assim nada me impede de refazer cada uma das palavras de minha confissão e carta de condenada. Amor, dê-me algemas e liberdade como só você é capaz. Há tempos não piso no chão e tuas asas, que me erguem acima das nuvens e nos escondem das vistas curiosas, são as únicas a sentirem minha falta de certeza na planta dos pés. Sou vacilo e, passo cá, passo lá, esta é nossa valsa alada. Teu espírito e delicadeza, bem escondidos sobre essa armadura enferrujada, conduzem a coreografia do incerto. E minha goela frágil projeta a melodia melancólica do mudo-mutuamente-compreendido. Fingir que não somos par é só desculpa para sermos tesouro bem escondido ou paraninfos dum amor sublime.
Hoje, eu estava me lembrando do “Perca um livro”, projeto que conheci através de meu professor de Literatura há alguns anos. Não sei a quantas anda a iniciativa, atualmente, mas… Recordar-me do mesmo me fez querer perder um livro. Assim, de súbito mesmo. Amanhã, no Centro de Maceió. Fazer da minha Terça-feira uma Terça-feira bonita. Será “Pequenas descobertas do mundo”, uma coleção de contos e crônicas de Clarice Lispector quando escritora do Jornal do Brasil. Acompanharei o livro através do site (se quem o encontrar aderir à campanha) e então vejamos se é ou não uma boa ideia transformar o mundo inteiro numa biblioteca. Caso queiram monitorar o (“meu”) livro perdido, é só acessarem ao livr.us e digitarem o código 5KLN6AV4AHHOL.
Que tal perderem um livro também?
Só você, Sofia?
Gaarder, “O mundo de sofia”, sobre o Romantismo
Quando eu digo que não mais me dilacero durante as madrugadas e minto não saber do gume da poesia insone, quando eu exponho os lábios secos sem reação ou curvas e guardo sob o travesseiro as lágrimas, quando eu te olho com as meninas mortas e ouço os espíritos do brilho que antes possuíam sussurrarem por socorro. Eu busco esquecer e recriar as capas das quais você tão bem me despiu, mas o tempo, aqui dentro, corre e não passa. “Tão contraditória”. Ainda me recordo da tua voz e as lembranças ardem no vazio que tenho ou que me forço a ter. Quem sabe ao certo? “Você sabe”. Eu não tenho coragem para abrir os olhos porque meu ímpeto surge apenas quando vago dentro do meu próprio eu, e para isso não necessito de visão ou globos oculares. Mas meu sensitivo ajna também chora.
Tudo o que existe ao meu redor é breu azul-marinho e silêncio. Acostumei-me à mudez não só pelas brincadeiras com o sobrenome, mas como também pela percepção que a quietude traz aos acolhedores do volume nulo. Fiz-me minimalista. Flutuar submersa em um espaço desconhecido e abarrotado de ausência líquida dota o corpo com susceptíveis pontos, pois sinto, sinto, sinto. E sinto. Sou capaz de notar a mais tenra mudança até mesmo nos cabelos, e não sou eu mesma que acredito que cortar os fios é cortar parte de si? Provo-me. Se aprovo? Ainda corre em minha pele o vácuo ralo.
De todo modo, a carência do vital no centro do peito ainda pulsa. Você se foi. Há meses. Levou o que me faz falta. A intervalos, expulso bolhas do raro ar que guardo. Estico, raciono, conto o oxigênio. Minutos, minutos, minutos… A veracidade de encarar o mundo e sua ensurdecedora orquestra quase me põe em pânico, mas aquieto. Embora morrer na intimidade seja uma boa ideologia, alongar estes momentos de reconhecimento em si e sobre si é minha razão de ser. Queimar o órgão respiratório não seria salvação e eu vivo de purgatórios. Sacrifício para a purificação daquilo que tão bem soubemos e quisemos e insistimos e, com verdade na ponta da língua que te diz, repetiríamos. A penitência da confissão não vale quando não se tem arrependimento. Como volto no tempo e mergulho no pecado?
Eu não quero abrir os cílios para encarar a luz ofuscada pelas águas, tampouco para observar a escuridão que se alonga. Mas eu tenho escolha? Nem ao menos sei para que lado meu corpo estesiado se volta. O que me guia é taciturno, sem precisão além de sua obscuridade.
São estes os metros que adio para meu funeral. Nossa marcha fúnebre. Retorno à superfície lentamente para não estourar os pulmões tão comprimidos e, veja, onde está a diferença entre meu estado de apneia submersa e a pungente saudade? A garganta arde. O choro que derramo mistura-se ao oceano que, no escuro, grita minha dor e necessidade de ver-te se aproximar à nado para segurar na ponta de meus enrugados e gelados dedos.
Agarro-me às ondas.
- Como você ganha a vida?
- Quem disse que eu ganho?
(Sorrisos)
- Como você perde a vida?
(Perguntou novamente)
- Perco a vida… Como todo mundo perde, não?
- Não, eu ganho.
- Como?
- Como todo mundo ganha a vida, não?
- Como?
- Trabalho, estudos, a vida então vai desatinando um vício relativamente tolerável.
- Sempre fala assim?
- Assim como?
-“Desatinando um vício relativamente tolerável.”
- A vida é justamente isso, não é?
- Não sei o que é desatinar.
- Perder o juízo, a ideia, o tato, a prudência.
- Enlouquecer?
- É… Mas eu não gosto dessa palavra.
- Por quê?
- Minha mãe enlouqueceu. Minha irmã mais nova também.
- O que houve com a mãe?
- Está num asilo.
- E com a irmã?
- Morta.
- Lamento.
(Silêncio. Primeiro silêncio. Ela, a mulher, tinha um cigarro nos lábios e um olhar profundo, um tanto melancólico. Era um olhar castanho, dos melhores olhares castanhos que existem neste mundo, e no instante que ele, o homem, percebeu um fragmento de encantamento naquele foco de luz incandescente numa alma escura, decidiu iluminar-se por um pouco que fosse. Ela era uma mulher razoável. Só o olhar a tornava divina, mais linda que todas as outras mulheres, com o olhar castanho mais lindo dentre todos os demais olhares).
- Quando percebeu que ganhava a vida, ao invés de perdê-la?
(Ele perguntou interessando-se pela mulher de olhar castanhos mais lindo do mundo! Que lindos são estes personagens, são lindos!)
Quando eu tentei o suicídio.
- É um milagre você estar aqui?
- É casualidade. Não era a hora. Quando for a hora, tentarei a sobrevivência e não conseguirei me livrar da morte. Por isso, sim: estou ganhando vida ao invés de perdê-la.
- Quem perde a vida?
- Pessoas como você. Que acham os problemas maiores do que elas mesmas.
- Como assim?
- Eu tentei me matar porque achava que estava perdendo a vida, ao invés de ganhá-la.
- Não gostaria que tivesse se matado.
- Se eu tivesse morrido você não saberia.
- Mas aí sim eu perderia.
- Perderia o que?
- A cor dolorida e linda dos teus olhos.
(O segundo silêncio. Trocaram encantamentos sem dizer palavra alguma. A mulher, que era bonita e graciosa, estava absolvida pelo manto desleal que somente os poetas possuem).
- Como você sobrevive? (ela perguntou).
- Sobrevivendo.
- Ando, Endo, Indo, suas respostas são marcadas desta forma?
- Você é linda.
- Obrigada.
(Corou-se).
Me dá um beijo.
- Que tipo de maluco diz “Me dá um beijo?”
- Aqueles que querem ganhar ao invés de perder mais do que já perderam ao longo da vida.
- Pessoas assim são fascinantes, sabia?
- E se eu disser que eu escrevo poesias? Que eu sou um compositor, que eu gosto de arte, cultura, que eu adorei o teu sotaque mineiro.
- Eu diria que você é engraçado.
(era como se os dois já se conhecessem há tanto tempo!)
- Por quê?
- Você ainda não sabe o que é desatinar.
Heitor Henrique.
“Eu sei o que você está pensando.
O quê?
‘Por que eu não tomei a pílula azul?’”
Quando você empurrou goela abaixo o comprimido vermelho e tuas pupilas se dilataram numa reação peristáltica, quando você tocou com os dedos no espelho e soube que o reflexo era ilusão, quando os cabelos curtos daquela com quem você descobriria a veracidade dos sentimentos aproximaram-se de tua orelha e fizeram tua nuca arrepiar, no fundo você foi capaz de sentir que o escarlate daquela pílula só era de tamanha intensidade porque referenciava-se à compilação do sangue de todas as almas cegas. O mundo é criação, disso sempre fomos conscientes. Mas, criação de quem? Você tomou a pílula azul por ser curioso e agraciado com ímpeto. Somos graça.
A grande arte só é possível aos ousados que suportam o gosto da suposta e própria morte, porque perder os cabelos e ter que desaprender tudo o que um dia se foi ensinado é desafio para quem sabe ganhar equilíbrio com as quedas. Nem todos os pés percebem que passa-se mais tempo sobre uma única perna do que apoiado em duas. A estética é guerra, a exposição é campo minado e grandes homens são pequeninos quando nus de pêlos e porquês. O ápice da tua espinha dorsal ainda é sensível e consegue captar o invisível, estou certa?
Ninguém nos disse qual a origem exata do furacão que cerca a humanidade e nem as asas de Morfeu seriam capazes de suportar todas as nossas dúvidas e conclusões, por isso nos calamos e conversamos entre olhares ou às escuras. Gosto do som de tua voz quando explana sobre os números na mesma medida em que você aprecia meus olhos quando exponho minha admiração pelo lado direito do cérebro. Nunca soubemos apontar os erros do universo, mas achamos soluções escondidas em sombras e pesares para o que tanto gritam as outras bocas. Você sabe, tudo parte do ventre e do parto. Grandes ideologias iniciam sua corrida nas veias e no pensar a partir do berço, a partir do convívio. Mas alguém saberia lidar com nossas divagações? Deixamo-as guardadas em buracos de muros e arcas sob a areia.
Inerentes são apenas nossos instintos e todo o mais é moldável, nisso faz-se necessária a sociedade. Contudo, como proceder quando o sistema é podre e possui mãos aleijadas que não sabem moldar anjos ou seres conscientes? “O todo não quer a liberdade das partes, por isso as aliena, infecciona e descarta”. Dão pão de graça quando a massa é batizada em veneno e os lábios dos moribundos contentam-se com o passageiro prazer. Nosso desejo sempre foi o de enfiar os dedos em tais beiços e abri-los à força, mas nisso estaríamos traindo nossa própria fantasia de livre-arbítrio. Sabemos que eles não são livres, mas não podemos nós próprios condená-los e condicioná-los à liberdade.
O impasse é este ponto, esta cruzada, passamos os limites de nossos ideais ou aquietamos e assistimos ao espetáculo? Nós poderíamos fazê-los renascer de abrupto, mas apenas jogamos pistas. Nós poderíamos entregar-lhes o mapa, mas somente afundamos pegadas no chão. Seríamos capazes de lhes dar o real, mas eles aceitariam ou considerariam o verdadeiro como verdade? De dar seguimento à vida na qual seus olhos ardem porque nunca antes foram usados, mesmo adultos?
“Eu só posso lhe mostrar a porta. Você tem que atravessá-la.”
A chave está sobre o altar que é vossa perspicácia e filosofia.